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UDEMO | 4/02/14 11:36 | Atualizado em 4/02/14 11:45


Ana Clara e a luta por um mundo melhor

O que é educação? A lei que estabelece as diretrizes e bases da educação escolar brasileira inicia com a definição de que “a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”. Ou seja, a educação vai muito além do ensino formal, com suas escolas e seus cursos. É na convivência que se aprende muito e na passagem das tradições de uma geração para outra que se ampliam e se consolidam saberes, habilidades e, mais que tudo, valores.

Mas se há problemas sérios no ensino formal, no contexto maior - fora dos muros das escolas - a realidade é cada vez mais triste, violenta e cruel.

Na vida familiar, o tempo dedicado aos filhos é cada vez menor, principalmente quando mães trabalham para ajudar nas despesas da casa; quando pais e mães chegam após um dia de trabalho extenuante que começa e termina em transportes superlotados. Como esperar maior disposição para escutar, entender, cuidar do filho?

Na convivência humana, há cada vez mais solidão. O relacionamento é virtual, em redes sociais. As pessoas andam na rua com fones, uma forma de não tomar conhecimento da realidade que as cerca.  No extremo, tomam drogas, que as levam para outros mundos. Como pode haver nessa convivência o contato humano, a troca, o cuidar do próximo?

No trabalho, cada vez mais predomina a competição, o avanço da tecnologia. É a luta para se estar sempre atualizado, a briga por um salário melhor, a preocupação diária para não perder o emprego. Por que passar a informação relevante para um outro que pode tomar seu lugar?

Nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil, pareceu a todos que a situação ia mudar.

Cresceu a esperança no pipocar de passeatas de jovens e adultos por inúmeras bandeiras: melhores escolas, melhores hospitais, melhores transportes. Esperava-se a transformação de tais movimentos pacíficos em planos dos órgãos governamentais, para cada um desses pontos. Ao invés disso, assistiu-se primeiro à infiltração de mascarados com a intenção de destruir o que havia em sua volta, depois a preponderância deles, que passaram a dominar qualquer manifestação. O que esperar além da violência, do esconder a identidade, do afastamento do outro?

Finalmente, há a manifestação cultural. A música hoje libera emoções e tensões reprimidas, seja por meio do funk, seja no pagode ou mesmo num samba-enredo de uma escola de samba. O mesmo se dá com uma peça de teatro ou uma novela. Ao assistir todos os dias o sofrimento e a luta de um personagem de telenovela, as pessoas se identificam, solidarizam-se e criam a esperança que tudo enfim se resolverá. Mas como ter a certeza do bem contra o mal do dia a dia real, fora das novelas?

Apesar de tudo, ainda precisa haver esperanças. Uma delas, em relação à nova geração. A cada criança que nasce, reacende o desejo que ela vença na vida, faça a diferença. Ao vê-la lendo histórias de príncipes e princesas e acreditando que todos serão felizes para sempre, acredita-se que essa inocência se transformará em desejo de viver intensamente, de conviver e de cuidar do outro.

Mas, chega então a notícia de que uma dessas crianças, representante de tantas pequenas cidadãs brasileiras – Ana Clara – morreu queimada porque um jovem ateou fogo no ônibus em que ela estava com sua mãe e sua irmã, no Maranhão. Uma notícia que logo se mistura com tantas outras de violência e que logo será esquecida.

Não podemos permitir tal esquecimento. A morte de Ana Clara marca o fundo do poço a que chegamos.
Precisamos fazer renascer a sociedade brasileira. Uma sociedade em que a união das pessoas seja real. Em que a solidariedade seja a maior marca. Em que as pessoas vivam com dignidade. Uma sociedade que dê sinais evidentes a seus governantes de que suas condições de vida precisam melhorar, que o dinheiro da corrupção deve voltar aos cofres para se transformar em benefício de todos, que a ética e os valores estejam presentes na convivência em cada casa, em cada rua, em cada local de trabalho, em cada cidade, em todo o país. Uma sociedade em que a educação para a vida e para o trabalho esteja presente em todos os momentos e em todos os lugares.

Então, Ana Clara se transformará em mártir que morreu por um mundo melhor. E os sinos dobrarão por ela.

Walter Vicioni Gonçalves, ex-diretor de escola, Diretor Regional do SENAI-SP, Superintendente do SESI-SP e membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo


 

 

 

 
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