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UDEMO | 28/03/14 12:47 | Atualizado em 28/03/14 12:47


No palco, nosso aluno

Tantas políticas, tantas decisões, tantas diretrizes. Discute-se com base em teorias pedagógicas, em visões dos políticos, em metas de planos governamentais. Pouco se fala do principal ator do processo educacional: o aluno.

Quem é ele? O que ele quer? Quais seus sonhos e sua realidade?

Podemos saber um pouco sobre o aluno com os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar – PeNSE, realizada em 2012, a partir de parceria entre o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE e o Ministério da Saúde, com o apoio do Ministério da Educação. A pesquisa levantou informações junto a uma amostra de escolares do 9º ano do ensino fundamental.

A seguir, alguns resultados referentes aos alunos da capital de São Paulo.

O apoio da família - Em relação à família, mais da metade (58,7%) mora com pai e mãe, embora seja expressivo o percentual dos que moram apenas com a mãe (33,5%).  Somente 44,3% dos alunos (50,9% na escola privada e 42,7% na pública) responderam que, nos últimos 30 dias, seus pais entenderam seus problemas e preocupações. Também em relação ao último mês, 12,5% dos alunos (10,6% dos meninos e 14,6% das meninas) foram agredidos fisicamente por um adulto da família.

A solidão – Com relação aos últimos 12 meses, mais de 17% (11,8% dos meninos e 23,2% das meninas) se sentiram sozinhos na maioria das vezes ou sempre. Cerca de 10% (6,8% dos meninos e 14,8% das meninas) perderam o sono devido a preocupações.

Problemas de relacionamento na escola – Com relação ao último mês, apenas metade (53,8%) dos alunos de escolas públicas considerou que os colegas os trataram bem e/ou foram prestativos com eles. Entre os demais, 28,6% “raramente ou às vezes” e 17,6% “nunca” receberam tal tratamento. Quanto a se sentirem humilhados pelas provocações dos colegas, 32,4% alunos das escolas privadas e 29,9% das públicas responderam que acontece às vezes ou raramente, mas 6,8% das escolas privadas e 8,3% das públicas responderam que acontece quase sempre ou sempre.

A violência – Com relação ao último mês, 9,9% dos alunos não compareceram à escola por falta de segurança no trajeto casa-escola e 10,3%, por falta de segurança na escola. Ainda, 7,3% estiveram envolvidos em briga na qual alguma pessoa usou arma de fogo.
Uso de drogas e bebidas – Do total de escolares, 11,6% já usaram drogas ilícitas alguma vez. Com relação ao último mês, 29,8% consumiram bebida alcoólica e 7,3% fumaram cigarros em, pelo menos, um dia.

O acesso à Internet e à televisão - Os resultados mostram que o aluno tem acesso à Internet em seu domicílio (98,5% da rede privada e 75,8% da pública), podendo, inclusive, ingressar em redes sociais. Do total de estudantes, 81,1% costumam assistir a duas ou mais horas de televisão, num dia de semana comum.

É para esses alunos que a educação, tal como estruturada hoje, foi concebida?

O mundo mudou, as condições de vida das crianças e adolescentes mudaram e a escola continuou a mesma.

O grande avanço que se registrou na educação, nas últimas décadas, foi a universalização do ingresso na escola, antes reservado a uma elite. Mas, ao mesmo tempo, o que se universalizou foi o ensino nos mesmos padrões, como se todos os que agora ingressavam tivessem as mesmas condições de vida, a mesma estrutura familiar e o mesmo acesso a bens culturais dos alunos de outros tempos.  Nesse contexto, cobra-se única e exclusivamente dos professores – e dos educadores, de modo geral - que atinjam padrão de ensino que permita cada vez melhor desempenho em testes nacionais e internacionais. E os outros atores?

O que realmente falta - na sociedade como um todo – é o olhar para nossos alunos. É essencial que quem formula planos de educação, leis e normas tenha consciência do perfil da criança, do adolescente e do jovem que frequentam nossas escolas. É imprescindível que governantes não esqueçam que precisam prover condições reais para que todos os educandos sejam tratados sem nenhuma distinção de raça, gênero ou classe social. É fundamental uma ação complementar da família com os educadores, principalmente no processo de socialização das crianças. É preciso que os gestores na área de educação providenciem os meios para a contínua melhoria do processo educacional.

Não se pode intervir somente no fim do processo, como se na atuação do professor numa sala de aula estivesse a solução de todos os problemas da educação.

Só com o engajamento de todos e um pacto com adesão de todas as esferas da sociedade, será possível planejar e colocar em prática estratégias de inclusão para o aluno que hoje enfrenta solidão, a falta de apoio de sua família, problemas de relacionamento e violência e que chegam – em casos extremos – a buscar a fuga em drogas e bebidas.
Somente com políticas formuladas com a efetiva participação ou aquiescência de todos, será possível (re)criar um processo educacional – dentro e fora dos muros da escola - em que os alunos possam aprender e aplicar conhecimentos, desenvolver habilidades e assumir atitudes, como indivíduo e como ser social. Alunos formados para a vida e para o trabalho.

É tempo de a sociedade brasileira permitir que crianças e adolescentes realizem seus sonhos.

Walter Vicioni Gonçalves
Ex-Diretor da Rede Pública, Diretor Regional do SENAI-SP, Superintendente do SESI-SP e membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo


 

 

 

 
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