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UDEMO |28/07/14 14:20| Atualizado em 29/07/14 11:46


Matéria publicada na Folha de São Paulo, 27 de julho de 2014.

Planos particulares adotam sistema de saúde da família

Ao menos dois grupos privados têm programas do tipo, antes concentrados no SUS e em famílias de baixa renda

Equipe gerencia saúde do paciente e liga para saber se pressão arterial ou a glicemia estão sob controle

CLÁUDIA COLLUCCIDE

Até então concentradas no SUS e com foco em famílias de baixa renda, as equipes de saúde da família estão chegando aos planos de saúde.

Ao menos dois grupos, as Unimeds e as operadoras de autogestão, já têm programas de medicina da família que ficam responsáveis pelo paciente dentro do sistema.

As experiências são baseadas em modelos de países como Inglaterra, Holanda, Espanha e Canadá. Estudos mostram que 80% dos problemas de saúde podem ser resolvidos por esses profissionais, sem necessidade do uso de alta tecnologia.

Funciona assim: o paciente procura um ambulatório de saúde da família (além do médico, podem contar com enfermeiras, nutricionistas, psicólogas e assistentes sociais) para consulta de rotina ou em situações inesperadas, como crises de sinusite e problemas gastrointestinais.

É examinado, medicado e, se for caso, encaminhado a um especialista. Depois, recebe um retorno, que fica registrado no prontuário.

A equipe passa a "gerenciar" a saúde do cliente. Telefona, por exemplo, para saber se a pressão arterial ou a glicemia estão controladas.

"É uma espécie de personal doctor'", resume José Augusto Ferreira, diretor de provimento de saúde da Unimed de Belo Horizonte (MG).

A operadora testa há um ano um projeto piloto, com 1.700 clientes. No período, as idas aos pronto-socorros caíram de 35% para 18%. O paciente também fica com número do celular do médico e pode acioná-lo se precisar.

"Ainda não precisei ligar, mas dá mais segurança para a gente. São mais atenciosos, perguntam mais, não é aquela consulta de cinco minutos", diz Maria de Lourdes Araújo, que acompanhava a filha Jeniffer, 8, em consulta de rotina, na sexta-feira (25).

"As pessoas que têm planos estão perdidas hoje no sistema, sem direcionamento. Fazem uso excessivo e improdutivo dos serviços de saúde", diz José Ferreira.

A Cassi (Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil), com 700 mil usuários, tem modelo parecido, porém, mais abrangente. São 65 clínicas no país com equipes de saúde da família.

Pelo menos uma vez por ano, os usuários cadastrados são procurados para agendarem consulta preventiva.

Além disso, também podem ser contatados por telefone para falar sobre possíveis dificuldades com a dieta ou exercícios, por exemplo.

Mas por que iniciativas como essas, consagradas na literatura médica mundial, ainda são tão escassas?

Há várias hipóteses, entre elas a crença de usuários de planos de saúde de que medicina de família é "medicina de pobre" e de que os planos só querem economizar.

Somam-se a ela o desinteresse dos médicos numa especialidade pouco rentável e ainda a própria (falta de) lógica do sistema de saúde, que se concentra nas ações curativas e não nas preventivas.

"Temos que entender que a atenção primária não é menor, que não restringe acesso às novas tecnologias. O foco é antecipar o risco e, quando ele ocorre, encaminhar o paciente aos recursos necessários de forma mais organizada", afirma Denise Eloi, presidente da Unidas (União Nacional das Instituições de Autogestão em Saúde), da qual a Cassi faz parte.


Iniciativa pode elevar interesse de alunos pela área, diz médico

Hoje, menos de 10% das vagas de residência médica são de medicina de família --e só 30% estão ocupadas

Adesão de mais planos de saúde será inevitável a longo prazo, afirma presidente de entidade que reúne operadoras

CLÁUDIA COLLUCCIDE

Um maior investimento do setor suplementar em medicina de família poderá despertar maior interesse dos médicos na especialidade.

Hoje, menos de 10% das vagas de residência médica estão alocadas para essa área da medicina. E dessas, só 30% estão ocupadas.

A avaliação é do médico Daniel Knupp, um dos diretores da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, que tem hoje 5.000 sócios pelo país, a grande maioria trabalhando na rede pública de saúde.

"Em países como Inglaterra, Holanda e Canadá, 40% do total de vagas são para a medicina de família", diz.

PERDIDOS NO SISTEMA

Segundo ele, embora o atrativo aos planos seja a redução de custos que o investimento em atenção básica traz, a iniciativa será "ótima" para o paciente. "Ele deixará de ficar perdido no sistema, sem ninguém que o conheça."

Para Knupp, com o aumento de custos dos procedimentos e a exigência de maiores coberturas, os planos passaram a se preocupar com a real efetividade dos serviços que prestam aos clientes.

"Não há viabilidade econômica para o modelo de saúde vigente hoje, centrado no alto uso de tecnologias. Grande parte desses artefatos não mudam os indicadores de saúde, pelo contrário, provocam danos aos pacientes", afirma José Augusto Ferreira, diretor de provimento de saúde da Unimed de Belo Horizonte.

Dois públicos têm aderido mais ao plano piloto da empresa que oferece o serviço de médico de família, de acordo com ele: o empresarial e o que conhece o conceito.

OPÇÃO ATRATIVA

Para Denise Eloi, da Unidas, além de disseminar o conceito de que a medicina de família é mais efetiva, as operadoras de planos de saúde deveriam oferecer vantagens aos clientes, como redução do preço, para tornar a opção mais atrativa.

Para Arlindo de Almeida, presidente da Abrange (Associação Brasileira de Medicina de Grupo, que representa as operadoras de planos de saúde), falta ousadia aos planos para a ampliação do modelo no setor privado.

Mas ele acredita que a adesão de mais empresas será inevitável a longo prazo.

"Muitas adotam programas de gerenciamento de doentes crônicos para prevenir complicações. Já perceberam que é uma estupidez deixar esses casos soltos."

 


 

 

 

 
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