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UDEMO |13/09/19 | Atualizado em 4/10/19 11:09


Finlândia X Lerolândia

Finlândia

A Finlândia, hoje, é o país que tem a melhor educação pública do mundo. Até os anos 1950 e 1960, a Finlândia era um país pobre e subdesenvolvido. Com muitas diferenças regionais, a educação pública tinha resultados abaixo da média dos países da OCDE. O investimento em educação pública, a partir dos anos 1970, alavancou o nascimento de uma economia sofisticada e altamente industrializada.

São Paulo é o estado mais rico do Brasil. Até os anos 1950 e 1960, tinha a melhor educação pública do país (de qualidade superior à das privadas), conceituada até mesmo no exterior. Hoje, a educação pública do estado de São Paulo é considerada uma das piores do Brasil. E a educação pública do Brasil é considerada uma das piores do mundo.

O que aconteceu ? Por que a Finlândia conseguiu progredir tanto, e São Paulo, regredir tanto, na proporção inversa ?

É o que vamos analisar na próxima série – Finlândia X Lerolândia – em capítulos curtos, objetivos, breves e altamente esclarecedores.

Acompanhe !

13/09/2019 - Finlândia X Lerolândia - 01

Finlândia X Lerolândia - 1

A Finlândia, hoje, é o país que tem a melhor educação pública do mundo. A Lerolândia é o apelido que criamos para o Estado de São Paulo. Além da expressão “lero-lero” (conversa mole, enganação), o nome lembra o personagem “Rolando Lero”, da Escolinha do Professor Raimundo. Ele era especialista em “enrolar”; especialista em “lero-lerar”, sem resolver a questão.

Em vários discursos, e inúmeros materiais, depara-se com manifestações do Governador do Estado e do Secretário da Educação no sentido de que, em três anos, São Paulo terá o melhor IDEB do Brasil. Até 2030, terá um IDEB semelhante ao da Finlândia (onde, aliás, não existe esse tipo de parâmetro).

Então, vamos falar um pouco da Finlândia, onde educação pública é coisa séria, e da Lerolândia, São Paulo, onde educação pública, infelizmente, não é coisa séria (para os governantes), virou produto de marketing político, demagogia, com uma pitada de megalomania. Referimo-nos, é claro, à educação básica.

16/09/2019 - Finlândia X Lerolândia - 02

Finlândia X Lerolândia - 2

Por que funciona lá, na Finlândia, mas não funciona aqui, na Lerolândia ?

Porque lá, na Finlândia, os filhos (e netos) do Presidente, do Primeiro Ministro, dos Ministros de Estado, dos Secretários, dos Magistrados, dos políticos, dos empresários e dos pobres estão todos na mesma escola - pública. E todos –dos mais ricos aos mais pobres - querem que seus filhos (e netos) tenham a melhor escola - pública.

Aqui, na Lerolândia, os filhos (e netos) do Governador, dos Ministros, dos Magistrados, dos políticos, dos empresários e, principalmente, dos Secretários de Educação estão nas melhores (e mais caras) escolas privadas. A escola pública é para os filhos dos outros: dos pobres. Por isso, os responsáveis pela escola pública ficam à vontade para implementarem nela suas convicções ideológicas, seus programas e projetos, de forma aleatória, casuística, sem as condições necessárias, e sem os profissionais exigidos. Muitas vezes, de forma até mesmo irresponsável. Por quê ? Porque é a escola “dos outros”; não é a escola onde seus filhos (e netos) estudam. A excelente escola privada dos seus filhos (e netos) está protegida contra essas aventuras. Lá, a boa educação está garantida, com projetos sólidos, corpo docente completo, capacitado e bem remunerado !

Vamos imaginar duas realidades virtuais. Primeira, o Governador e o Secretário da Educação colocando seus filhos (e/ou netos) nas escolas públicas estaduais. Segunda, o Governador e o Secretário da Educação impondo os mesmos projetos e programas da rede estadual nas escolas privadas onde seus filhos (netos) estudam. Com o mesmo conteúdo, e da mesma forma !

Já sabemos como eles reagirão a essas hipóteses: isso é provocação ! É provocação sugerir que os responsáveis pelos projetos das escolas públicas estaduais coloquem seus filhos/netos nessas mesmas escolas? Não, é apenas uma oportunidade que eles teriam de comprovar que realmente acreditam na escola pública, e nos seus projetos/programas !

18/09/2019 - Finlândia X Lerolândia - 03

Finlândia X Lerolândia - 3

Sabe por que a Finlândia chegou ao topo da educação mundial? Segundo a Ministra da Educação, porque ela nunca teve essa preocupação! O governo da Finlândia, desde 1970, tem como meta oferecer o melhor ensino público aos seus alunos, valorizando os aspectos cognitivos e os não-cognitivos (sócio- emocionais) no currículo, e recrutando os melhores profissionais para essas escolas.

Os alunos (e os professores) não são submetidos a aquele processo de estresse constante, típico de sistemas que se preocupam, em primeiro lugar, em serem os primeiros do mundo. A escola deve ser um ambiente prazeroso (e eficiente) de troca de experiências, de ensino e aprendizagem. O ano letivo é mais curto; os alunos ficam no máximo 6 horas por dia na escola, têm poucas “lições de casa”, e não são submetidos a provas todos os meses. A avaliação é global e contínua, com base na observação e no acompanhamento diário do trabalho do aluno. Justificava para isso: os alunos precisam ter tempo para brincar, passear e viajar! Eles não podem ser submetidos a uma dose exagerada de estresse. O estresse estudantil na Finlândia é um dos menores do mundo (7%); na Coréia do Sul, chega a 51%! Em resumo, na Finlândia, a educação formal, escolar, deve visar ao bem-estar, à “felicidade dos alunos”.

Portanto, ter chegado ao topo do ranking mundial em educação nunca foi uma preocupação do sistema finlandês de ensino. Foi uma consequência lógica do seu eficientíssimo sistema de educação pública.

Já aqui, na Lerolândia, todo novo projeto que é anunciado para a educação já vem com um carimbo: “até 2022 (ano da eleição!), o Estado deverá ter o melhor IDEB do Brasil; até 2030 (ano da Graça do Senhor!), estará no mesmo nível da Finlândia”!!

Portanto, por aqui, começa-se pela meta (virtual) a ser cumprida, e não pela criação das condições para se chegar lá. Ou seja, diferentemente da Finlândia, “atingir o topo” é causa e não consequência. Por isso, num primeiro momento, o estresse é geral: tem-se de cumprir metas, custe o que custar, mesmo sem as condições objetivas e subjetivas para tanto (há escolas sem aulas, desde o início do ano, por falta de professor; também por falta de professor, há escolas sem aulas de artes, desde o ano passado!). Num segundo momento, desconfiamos, virão as fraudes. As avaliações externas serão “calibradas” para mostrarem o resultado pretendido; haverá seleção dos melhores alunos para fazerem essas avaliações. E, até mesmo, aquela famosa “mãozinha” durante a aplicação das provas, para “prestigiar” o nome e o trabalho da escola. Tudo isso com o “de acordo” tácito e sigiloso da SEDUC.

Ainda, nesse esquema vai prevalecer o treinamento, a capacitação, o “adestramento” de alunos para a realização das avaliações externas. O foco real não será a educação mas sim o desempenho na avaliação.

Regride-se, um pouco mais, com o discurso do avanço!

E o resultado, supostamente positivo, terá de ser mostrado e divulgado até as próximas eleições. Isso é educação séria ou marketing?

Mais uma vez, é a Lerolândia tentando travestir-se de Finlândia.

19/09/2019 - Finlândia X Lerolândia - 04

Finlândia X Lerolândia - 4

Por que funciona lá, na Finlândia, mas não funciona aqui, na Lerolândia?

Na Finlândia, os professores são o ‘segredo’ do modelo de educação. Os professores são a chave do sucesso finlandês. Por isso, investe-se muito na formação e na valorização do professor. O professor é visto como um ídolo na comunidade; valorizado e bem remunerado, é um exemplo de cidadão e de profissional. Ele é um dos profissionais mais valorizados no país. Ordem de valorização dos profissionais na Finlândia: advogado, médico, professor e enfermeiro.

Na Lerolândia, o segredo e a chave da educação são os projetos. Há dezenas deles por aí, e outros ainda virão. Não se investe na formação e na valorização do professor. Desprestigiado pelo próprio governo, o professor é desprestigiado pela sociedade. É mal remunerado. Por essas razões, a rede pública sofre hoje com a falta de cerca de 8.000 professores, mesmo “abrindo as comportas” para admissão de inabilitados e descompromissados. Na escala de valorização dos profissionais na Finlândia, o professor está em terceiro lugar. Na Lerolândia, ele deve estar 30º lugar. Exagero ? Não! Eis uma prova: uma professora PEB-I, dos anos iniciais, (com certeza, a profissional mais importante no processo de ensino aprendizagem) perde para uma empregada diarista ! Piso salarial do PEB – I, por 30 horas: R$ 1.674,75; por 40 horas: R$ 2.233,00. Média salarial da diarista: R$ 180,00 por dia. Em cinco dias, R$ 900,00. Em 22 dias, R$ 3.960,00 !

E, o que é pior, há uma afirmação recorrente entre todos os responsáveis pela escola pública, de Governador a Secretário da Educação, passando pelas Entidades Parceiras da Educação: “a melhoria dos salários dos profissionais da educação não se reflete na melhoria da educação”. Então, devemos concluir que a Finlândia está errada; certa está a Lerolândia !

Observação: é curioso ver profissionais bem remunerados (alguns muito bem remunerados!) afirmarem que remuneração não é importante!

20/09/2019 - Finlândia X Lerolândia - 05

Finlândia X Lerolândia - 5

Por que funciona lá, na Finlândia, mas não funciona aqui, na Lerolândia?

A Finlândia, para chegar onde chegou, separou a educação da política. Educação lá é programa de estado, e não projeto de governos. A política, quando entra, é apenas para subsidiar a educação.

Na Lerolândia, a educação está amarrada, algemada, colada, soldada na política. Muda o governo, muda toda a estrutura administrativa da educação; mudam-se os projetos e programas da Pasta, e até o siglário. Tudo o que era ligado ao governo anterior é varrido do mapa, tanto pessoas quanto projetos. De preferência, começa-se do zero. Dependendo de quem assume o governo, a educação vira moeda de troca para fins eleitoreiros. Nesse contexto, é impossível à educação funcionar.

Um exemplo: o Conselho Estadual de Educação (CEE), é um importantíssimo órgão da estrutura da Secretaria, sendo integrado por profissionais altamente qualificados, que fazem um excelente trabalho pela educação. Este Colegiado é composto por 24 membros, nomeados pelo Governador do Estado, mediante indicação do Secretário da Educação. Na atual composição do Conselho, apenas 2 Conselheiros são vinculados à escola pública de educação básica. Dois, de 24! A Câmara de Educação Básica do CEE que, obviamente, cuida da educação básica, é composta por 12 Conselheiros, dos quais, apenas dois são vinculados à escola pública de educação básica! Pergunta-se: será que o Governador e o Secretário estão mesmo preocupados com a escola pública de educação básica?

23/09/2019 - Finlândia X Lerolândia - 06

Finlândia X Lerolândia - 6

Por que funciona lá, na Finlândia, mas não funciona aqui, na Lerolândia?

Na Finlândia, a comunidade, de um modo geral, envolveu-se com a educação. Quem faz parte dessa comunidade? O Presidente, o Primeiro Ministro, os Ministros de Estado, os Secretários, os Magistrados, os políticos, os empresários, os trabalhadores em geral.

A Igreja, por exemplo, passou a exigir a comprovação de escolaridade para efetuar casamentos. Analfabetos não podiam casar. Em vez de diminuir o número de casamentos, essa medida fez elevar o índice de alfabetização do país.

Na Lerolândia, há um grande envolvimento da comunidade com a educação. Porém, isso se dá mais efetivamente com relação à comunidade atendida pela escola privada. A classe média, que tradicionalmente tem maior capacidade de mobilização e reivindicação, tem os seus filhos/netos matriculados nas escolas privadas. Os mecanismos de participação da comunidade nas escolas públicas ficam enfraquecidos, primeiro pela omissão do governo; segundo, pela condição dos pais dos alunos, pela falta de profissionais especializados na escola (por exemplo, educadores para visitar as famílias, com frequência) etc.

25/09/2019 - Finlândia X Lerolândia - 07

Finlândia X Lerolândia - 7

Por que funciona lá, na Finlândia, mas não funciona aqui, na Lerolândia?

Na Finlândia, o professor é um dos profissionais mais valorizados. Por isso, a formação inicial do professor é extremamente rica e rígida, compreendendo três partes iguais: a pedagógica, a formação específica e a prática. Atualmente, exige-se o nível de mestrado de todos os professores. Realmente, só ficam no magistério os melhores e vocacionados. O número de candidatos a professor é muito grande, mas apenas 10% dos inscritos são aprovados para os cursos de formação de professores, em nível de mestrado. Todas as faculdades são públicas e federais. A formação dos professores ocorre nessas faculdades federais, de excelente qualidade.

Na Lerolândia, os alunos que vão para as licenciaturas e pedagogia geralmente são pessoas de estrato cultural baixo. Essas faculdades, geralmente privadas, são mais acessíveis, mais baratas e, como faltam professores no Estado, a licenciatura é uma quase-garantia de emprego. E de baixa remuneração. Como faltam professores, muitas escolas públicas já se dão por satisfeitas quando aparece algum interessado em assumir aulas/classes. Se esses ‘professores’ não faltarem e conseguirem segurar os  alunos dentro da sala de aula, já está bom demais ! De qualidade e competência nem se cogita!

27/09/2019 - Finlândia X Lerolândia - 08

Finlândia X Lerolândia - 8

Por que funciona lá, na Finlândia, mas não funciona aqui, na Lerolândia?

A Finlândia reduziu o número de dias letivos (são 190), o número de horas de aula por dia (média de 5 horas),  limitou ao mínimo os deveres de casa e as provas escolares. Não existem avaliações nacionais. O foco principal dos professores deve ser ajudar os alunos a aprender sem ansiedade, a criar e a desenvolver a curiosidade natural, e não simplesmente a passar em provas. O mais importante é a qualidade do tempo em sala de aula, e não a quantidade. Além disso, as crianças precisam de tempo para ser crianças, brincar e sociabilizar.

Na Lerolândia, ao contrário, a moda é aumentar a quantidade de dias letivos (mesmo sabendo-se que a partir do início de dezembro nada mais acontece nas escolas públicas); ampliar, a qualquer custo, o número de horas que os alunos permanecem na escola (podendo chegar a 9), muitas vezes, sem necessidade, sem condições, sem professores e até mesmo sem merenda. Quanto às avaliações, internas e externas, elas já se tornaram uma neurose na administração da educação na Lerolândia. Saresp, Saeb, Ideb, Enem, etc, ditam as regras do processo de ensino aprendizagem. Aos poucos, vai-se descobrindo que alguns projetos, tidos como ‘de excelência’, na verdade, consistem de preparação e treinamento de alunos para aquelas avaliações.

30/09/2019 - Finlândia X Lerolândia - 09

Finlândia X Lerolândia - 9

Por que funciona lá, na Finlândia, mas não funciona aqui, na Lerolândia?

Na Finlândia, a educação pública de alta qualidade não é resultado apenas de políticas educacionais, mas também de políticas sociais. O Estado de bem-estar social finlandês desempenha um papel crucial para o sucesso do modelo, ao garantir a todas as crianças oportunidades e condições iguais para um aprendizado gratuito e de qualidade. Os que precisam de maior assistência no ensino recebem atenção particular.

Na Lerolândia, não se encara o verdadeiro desafio que é reduzir a imensa desigualdade de oportunidades educacionais que existe entre as crianças que nascem em famílias pobres e as mais ricas. Aqui é recorrente a ideia de pagar os professores com base no desempenho dos estudantes, entregar a liderança das escolas a especialistas em gerenciamento ou converter escolas públicas em privadas. Essas ideias não têm lugar no repertório finlandês de desenvolvimento da educação.

O sonho da Lerolânda não é vir a ser uma grande Finlândia ? Então é bom ir se acostumando com essas ideias.

02/10/2019 - Finlândia X Lerolândia - 10

Finlândia X Lerolândia - 10

Por que funciona lá, na Finlândia, mas não funciona aqui, na Lerolândia?

Na Finlândia, a educação pública de qualidade “é uma obrigação moral, pois o bem-estar e em última análise a felicidade de um indivíduo depende do conhecimento, das aptidões e das visões de mundo que são proporcionadas por uma educação de qualidade. É também um imperativo econômico, uma vez que a riqueza das nações depende cada vez mais de know-how e conhecimento" (Pasi Sahlberg). É uma obrigação moral, um imperativo econômico e uma realidade.

Na Lerolândia, a educação pública de qualidade é uma promessa de campanha eleitoral, uma desobrigação moral, um imperativo político e uma ficção.

04/10/2019 - Finlândia X Lerolândia - 11

Finlândia X Lerolândia - 11

Já afirmamos, antes, que, muitas vezes, nos deparamos com textos e discursos da “alta cúpula” afirmando que, no máximo até 2030, a educação pública da Lerolândia estará no mesmo nível da Finlândia.

Isso nos preocupa, pois, se realmente acontecer, é porque o nível da Finlândia terá caído muito. É  a única possibilidade de se igualarem !

Enquanto a prioridade aqui forem os projetos e não os professores, não haverá educação de qualidade!

Se este governo realmente estivesse interessado em criar uma rede pública de qualidade, gastaria seus quatro anos investindo nos professores e especialistas.

Seu lema seria: “nenhuma escola sem professor; nenhum professor sem capacitação”. Cumprida essa meta – óbvio, com a valorização salarial e social dos professores -, o próximo governo encontraria o terreno preparado para a implementação da Base Nacional Comum Curricular, do Currículo Paulista, e de todos os projetos que estão sendo ‘jogados’ na rede, sem muita chance de uma boa realização.

“Nenhuma escola sem professor; nenhum professor sem capacitação”. Isso é o que a Finlândia fez a partir dos anos 1970. Mas lá é a Finlândia; aqui, a Lerolândia !

Nähdään myöhemmin ! Até mais, em finlandês !

Votenmim ! Educação, em Lerolandês !

 


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