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UDEMO | 15/03/19 | Atualizado em 15/03/19 10:20


Tiroteio em escola de Suzano: o que educadores podem fazer frente a uma tragédia como essa?

O tiroteio protagonizado por dois jovens levanta o questionamento de como professores, gestores e funcionários podem agir em situações de tragédia e violência

por Ana Carolina C D'Agostini - Nova Escola – 13/03/2019

Hoje o país acordou com a notícia de uma tragédia ocorrida em Suzano, na Grande São Paulo. Dois ex-alunos, de 17 e 25 anos, entraram encapuzadas na Escola Estadual Professor Raul Brasil e efetuaram diversos disparos, matando oito funcionários e alunos e deixando diversos outros feridos. Os atiradores cometeram suicídio após o ataque e, até o momento, não se sabe o que motivou a atrocidade.

Tiroteios em escolas como o que ocorreu hoje são estatisticamente raros. Até 2012 foram registrados em todo o mundo 400 ataques contra escolas e menos de 1% dos casos de tiroteios que atingem crianças entre 5 e 18 anos no mundo ocorrem em escolas. No Brasil, foram registrados 6 casos até 2017, sendo o mais grave o chamado Massacre do Realengo, ocorrido no Rio de Janeiro em 2011, no qual 12 pessoas morreram e o atirador cometeu suicídio após os crimes. Os Estados Unidos lideram o ranking desse tipo de violência, com 288 ataques a escolas nos últimos dez anos e com ocorrência até 57 vezes mais frequente que em outros países no qual também houve episódios similares. Devido ao alto índice de casos, o país tem investido em pesquisas sobre as causas de ataques como esse e em formas de manejo que podem ser adotadas pelas escolas.

Estudos sobre casos de tiroteio em escolas apontam para a relação entre rejeição social e agressividade. Segundo dados, a rejeição real ou imaginada pode aumentar o nível de agressividade consigo mesmo e com os demais. A rejeição pode ocorrer de três formas principais: pela provocação, por exclusão e pela rejeição de natureza romântica. A rejeição de natureza romântica se caracteriza tipicamente pelo amor não correspondido ou término de um relacionamento amoroso, ambos bastante comuns na adolescência e que podem provocar não somente a dor emocional, como também os sentimentos de ressentimento e raiva. O bullying – apontado como fator comum em 87% dos casos de atiradores que dispararam contra alunos nas escolas – e que se enquadra nas duas primeiras categorias de rejeição, faz com que a pessoa que sofre tal tipo de violência não se sinta aceita, valorizada e apreciada, além de comumente envolver a humilhação pública. Além de sofrer bullying, dados indicam que tais indivíduos responsáveis pelos ataques podem ser simplesmente tímidos ou excêntricos, com características pessoais não valorizadas pelos outros.

William James, filósofo e psicólogo norte-americano, foi um dos primeiros a discutir a relação entre rejeição social e o sentimento de raiva extrema, afirmando que "se ninguém se vira quando entramos, responde quando falamos, ou se importa com o que fizemos, e se todas as pessoas que encontramos nos ignoram completamente e agem como se fôssemos coisas não existentes, uma espécie de raiva e sentimento de abandono nos acomete, da qual a mais cruel dor corporal seria um alívio". Claramente, a maior parte dos alunos que sofre algum tipo de rejeição não reage com violência letal e há também outras causas para a ocorrência de tiroteio em escolas.

Embora a rejeição social seja o fator de maior prevalência, estudos indicam que atiradores que cometeram crimes em escolas apresentavam 3 principais fatores de risco: problemas psicológicos, como depressão, hiperagressividade ou tendências sádicas, interesse extremo em armas e explosivos, e fascínio com a morte e outros temas mórbidos. Além desses fatores, estudos indicam que a facilidade de acesso a armas de fogo aumenta a incidência de crimes como esse, e, inclusive, na grande maioria dos casos, as armas eram provenientes da família dos atiradores.

Tragédias como a ocorrida em Suzano, além da dor da perda e da sensação de insegurança que mais casos como esse possam voltar a ocorrer em outras escolas, apontam para o papel de gestores, professores e funcionários de escolas para lidarem com esse tópico. 

O que a escola pode fazer em situações de tragédia?

No ano passado, após o suicídio de alguns jovens em idade escolar ser noticiado pela mídia, levantou-se a bandeira sobre esse tema. Famílias, educadores e alunos se viram atravessados pela angústia e buscaram na escola referências sobre o que poderia ser feito tanto em nível de prevenção como de acolhimento. Frente a esse cenário, o Colégio Móbile, escola particular em São Paulo, promoveu um trabalho com algumas ações que incluíram todo o Ensino Médio e que podem ser adaptadas para outros momentos como o que está sendo vivido hoje.

Primeiramente, foi feita uma reunião entre coordenadores e diretores para discutir o que caberia no contexto da escola. Em seguida, fez-se uma reunião com todos os professorespara conversar abertamente sobre o tema. Os professores puderam expressar seus sentimentos, anseios, dúvidas e levantaram possibilidades do que poderia ser feito com os alunos. Após o ocorrido interrompeu-se uma aula de cada série e um professor e um coordenador educacional fizeram uma roda com os alunos para a a leitura do texto O medo, do autor João Anzanello Carrascozza. A partir dessa leitura, explicitou-se o objetivo daquela atividade e foram levantados temas presentes na narrativa, como a angústia, a solidão, a sensação de vazio, o desamparo e a importância de se saber a quem recorrer em momentos de dificuldade. A coordenação educacional reforçou que estaria disponível para dar continuidade à aquela conversa com quem sentisse necessidade, e foi surpreendente a quantidade de alunos que quiseram compartilhar o que estavam sentindo ou que pediram ajuda por não saber como agir. Dando continuidade ao projeto, uma psicóloga especialista foi convidada para conversar com as famílias sobre suicídio e foi apresentada uma peça de teatro aos alunos que abordava o tema de maneira sutil, seguida por um bate-papo com os atores, professores, coordenadores e diretores. Fora essas ações pontuais, a escola realiza projetos que trabalham as competências socioemocionais de maneira contínua, oferece aulas de yoga e meditação para os alunos e professores, e realiza atendimentos com alunos e famílias, fazendo encaminhamentos de cunho médico e psicológico quando necessário. 

O papel dos professores

Os professores estão no centro do cenário trágico ocorrido hoje. Além de vítimas, esses profissionais estão na linha de frente com o cuidado de falar com os alunos após a tragédia. Eles são potenciais transformadores de uma dor que não facilmente será colocada em palavras. Além de acolher o luto por aqueles que se foram, caberá aos professores retomar as aulas na escola e trabalhar o que foi vivido naquele espaço. Para os professores que atuam em outras escolas, caberá trabalhar o medo que ocorram situações similares e o luto por empatia dessa calamidade que atinge muitos que não estavam ali presentes.

professor também precisa de cuidados e deve trabalhar em parceria com a direção e com a coordenação da escola, além de incentivar o diálogo com as famílias.

Em termos práticos, em momentos de crise – ou seja, quando "o sujeito é obrigado a dar-se conta de forma aguda de sua finitude e instabilidade, do efêmero de sua vida, da fugacidade do tempo e da mutabilidade das coisas" – é fundamental que sejam criados espaços de acolhimento para funcionários, alunos e seus responsáveis. Uma boa sugestão é abrir a escola para conversar abertamente sobre o tema, seja com especialistas convidados, em rodas de conversa e de compartilhamento sobre sentimentos ou em discussões em sala de aula relacionadas ou não ao conteúdo didático. É importante que a escola aja rapidamentee que não feche os olhos para o que ocorreu, pois esta é uma oportunidade de ampliar o diálogo sobre a elaboração dos sofrimentos (coletivos e individuais) gerados pela situação e pensar no lugar da escola como espaço privilegiado para construção de significados. Tragédias como a de hoje alteram, comprometem e interferem no desenvolvimento humano, podendo afetar crenças pessoais, perspectivas futuras de vida e a saúde de diferentes formas.

Mesmo sendo um tema doloroso, é fundamental que a escola não tenha medo de falar sobre um assunto difícil como esse e outros tantos que eventualmente possam surgir. Negligenciar tal assunto é não permitir a expressão de sentimentos e impedir que a escola se questione em como agir em momentos de tragédia. O primeiro passo nesse sentido, segundo material elaborado pelo Conselho Regional de Psicologia sobre momentos de crise, é definir quem são os norteadores de ação em cada local e pensar na criação de redes articuladas de cuidados, como o encaminhamento psicológico e psiquiátrico, por exemplo.

Especialistas indicam também que professores e gestores identifiquem aqueles que estão mais afetados pela tragédia para que possam ser auxiliados. Os alunos podem ser encorajados a fazer o mesmo, recorrendo a um adulto quando perceberem que alguém está enfrentando dificuldades. Cada um pode precisar de diferentes formas de acolhimento e suporte para se recuperar completamente. Além disso, fora a questão de segurança nas escolas, é importante pensar na construção de projetos que trabalhem de maneira contínua as competências socioemocionais – como empatia, autocontrole, decisões responsáveis, autoconhecimento e habilidades sociais –, em maneiras de trabalhar o bullying na escola e ampliar o debate e a difusão de informações sobre saúde mental, tanto como fator fundamental de prevenção como de promoção de saúde.

Não estamos preparados para lidar com cenários inesperados de violência como o ocorrido em Suzano e, certamente, as consequências psicológicas do tiroteio na Raul Brasil serão múltiplas. A escola, espaço privilegiado que pode promover o aprendizado para muito além do conteúdo acadêmico, deve, sobretudo, em momentos como esse, criar ambientes de acolhimento, escuta e respeito e pensar em ações e projetos que cuidem do bem-estar dos alunos e de seus funcionários de maneira contínua.

* Ana Carolina C D'Agostini é psicóloga e pedagoga com formação pela PUC-SP e mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University. Trabalha como consultora de projetos em competências socioemocionais e é consultora do projeto de Saúde Mental do Educador da Nova Escola.

 


 

 

 
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